Meu filho brinca sempre da mesma forma. Isso é apenas uma fase ou um sinal de alerta?

Meu filho brinca sempre da mesma forma. Isso é apenas uma fase ou um sinal de alerta?

Por Equipe Técnica da TEAprimorando – Centro Integrado de Avaliação e Intervenção

Brincar é muito mais do que uma forma de entretenimento para a criança. É por meio das brincadeiras que ela descobre o mundo, desenvolve a linguagem, aprende a resolver problemas, exercita a imaginação, constrói relações sociais e fortalece habilidades cognitivas, emocionais e motoras.

Por isso, quando os pais percebem que o filho brinca sempre da mesma maneira, utiliza os brinquedos de forma repetitiva ou demonstra pouco interesse em explorar novas brincadeiras, é natural surgir a dúvida:

“Isso faz parte do desenvolvimento ou preciso procurar ajuda?”

A resposta depende de como essa brincadeira acontece, da idade da criança e do conjunto de habilidades que ela apresenta.

O brincar acompanha o desenvolvimento infantil

A forma de brincar muda conforme a criança cresce.

Nos primeiros meses de vida, o bebê explora o próprio corpo, observa objetos, leva brinquedos à boca e experimenta diferentes texturas.

Com o passar do tempo, passa a empilhar blocos, encaixar peças, imitar ações dos adultos, brincar de faz de conta e criar pequenas histórias utilizando bonecos, carrinhos, animais ou outros objetos.

Cada nova etapa representa avanços importantes no desenvolvimento da criatividade, da linguagem, da resolução de problemas e da interação social.

O que é esperado em cada fase?

Embora existam diferenças individuais, alguns comportamentos costumam ser observados:

Entre 12 e 18 meses

  • Explora brinquedos de diferentes maneiras.
  • Empilha objetos.
  • Empurra carrinhos.
  • Imita ações simples dos adultos.

Entre 18 e 24 meses

  • Começa a brincar de alimentar uma boneca.
  • Faz de conta que fala ao telefone.
  • Utiliza objetos de maneira funcional.

Entre 2 e 3 anos

  • Desenvolve brincadeiras simbólicas.
  • Cria pequenas histórias.
  • Representa situações do cotidiano.

Após os 3 anos

  • O faz de conta torna-se mais elaborado.
  • Participa de brincadeiras com outras crianças.
  • Assume personagens.
  • Cria regras simples para os jogos.

Mais importante do que decorar essas idades é observar se o brincar está evoluindo ao longo do tempo.

Quando o brincar repetitivo merece atenção?

Toda criança gosta de repetir brincadeiras que lhe dão prazer. Repetição faz parte do aprendizado.

O que merece atenção é quando praticamente todas as brincadeiras acontecem sempre da mesma forma, sem criatividade, flexibilidade ou interesse por novas experiências.

Alguns exemplos incluem:

  • alinhar brinquedos repetidamente;
  • organizar objetos sempre na mesma sequência;
  • girar rodas de carrinhos durante longos períodos;
  • abrir e fechar portas ou gavetas repetidas vezes;
  • assistir constantemente ao mesmo trecho de um desenho;
  • utilizar brinquedos apenas por uma característica específica, como girar, bater ou enfileirar;
  • demonstrar dificuldade para imaginar histórias ou criar situações de faz de conta;
  • apresentar sofrimento intenso quando alguém modifica sua brincadeira.

Esses comportamentos não significam, isoladamente, que exista um transtorno do desenvolvimento, mas justificam uma avaliação mais detalhada.

O brincar simbólico é um importante indicador do desenvolvimento

Uma das habilidades mais importantes da infância é o chamado brincar simbólico, também conhecido como faz de conta.

Quando uma criança oferece “comidinha” para uma boneca, transforma uma caixa em um carro, faz um urso “dormir” ou utiliza uma colher imaginária para alimentar um boneco, ela demonstra que consegue representar mentalmente situações do cotidiano.

Essa capacidade está relacionada ao desenvolvimento da linguagem, da imaginação, da flexibilidade cognitiva, da resolução de problemas e das habilidades sociais.

Quando o brincar simbólico está pouco presente ou não evolui ao longo do tempo, pode ser importante investigar como outras áreas do desenvolvimento estão acontecendo.

Meu filho prefere objetos a pessoas durante a brincadeira

Outro aspecto importante é observar como a criança compartilha suas brincadeiras.

Algumas perguntas podem ajudar:

  • Ela convida alguém para brincar?
  • Mostra suas descobertas aos pais?
  • Aceita sugestões durante a brincadeira?
  • Imita ações realizadas por outras pessoas?
  • Demonstra interesse em brincar junto ou prefere permanecer sempre sozinha?

Não existe problema em brincar sozinho. Na verdade, essa habilidade também é importante.

O que merece atenção é quando a criança demonstra pouco interesse em compartilhar experiências com outras pessoas durante grande parte do tempo.

O excesso de repetição pode estar relacionado a diferentes condições

Brincadeiras repetitivas podem ocorrer em diferentes situações, como:

  • fases naturais do desenvolvimento;
  • interesses específicos muito intensos;
  • diferenças individuais de personalidade;
  • dificuldades de linguagem;
  • alterações no processamento sensorial;
  • transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Por esse motivo, nenhuma conclusão deve ser feita apenas observando uma única característica.

Como estimular brincadeiras mais variadas?

Os pais têm um papel fundamental na ampliação das experiências de brincar.

Algumas estratégias incluem:

  • brincar junto com a criança todos os dias;
  • apresentar novos brinquedos sem substituir os favoritos;
  • incentivar brincadeiras de faz de conta;
  • contar histórias utilizando bonecos;
  • transformar atividades do cotidiano em brincadeiras;
  • permitir que a criança conduza parte da interação;
  • ampliar gradualmente as possibilidades da brincadeira sem interromper seus interesses.

O objetivo não é impedir que a criança repita uma brincadeira, mas ajudá-la a descobrir novas formas de explorar o mundo.

Quando procurar ajuda?

É recomendável buscar uma avaliação especializada quando o brincar repetitivo é acompanhado por outros sinais, como:

  • atraso na linguagem;
  • dificuldade para responder ao nome;
  • pouco contato visual;
  • interesses extremamente restritos;
  • resistência intensa às mudanças;
  • comportamentos repetitivos frequentes;
  • dificuldade para interagir com outras crianças;
  • pouca imaginação nas brincadeiras.

Uma avaliação baseada em evidências permitirá compreender se essas características fazem parte da variabilidade do desenvolvimento ou se indicam a necessidade de intervenções específicas.

O brincar também orienta o planejamento terapêutico

Na avaliação do desenvolvimento infantil, observar como a criança brinca fornece informações valiosas sobre suas habilidades cognitivas, sociais, comunicativas, motoras e sensoriais.

Mais do que identificar dificuldades, compreender a forma como a criança brinca permite construir intervenções individualizadas, utilizando seus interesses como ponto de partida para novas aprendizagens.

Conclusão

Brincar é a linguagem natural da infância. É durante as brincadeiras que a criança aprende sobre si mesma, sobre as pessoas e sobre o mundo.

Quando o brincar permanece excessivamente repetitivo, pouco flexível ou não acompanha a evolução esperada para a idade, vale a pena buscar uma avaliação especializada.

Na TEAprimorando, entendemos que cada brincadeira revela aspectos importantes do desenvolvimento infantil. Avaliar a qualidade do brincar é compreender como a criança pensa, aprende, se comunica e estabelece relações, permitindo construir estratégias que favoreçam seu desenvolvimento de maneira respeitosa, individualizada e baseada nas melhores evidências científicas.

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