Meu filho não aponta para mostrar as coisas. Isso pode ser um sinal de alerta?

Meu filho não aponta para mostrar as coisas. Isso pode ser um sinal de alerta?

Por Equipe Técnica da TEAprimorando – Centro Integrado de Avaliação e Intervenção

Imagine que uma criança veja um avião passando no céu. Instintivamente, ela levanta o dedo, olha para os pais e aponta para compartilhar aquele momento.

Esse gesto, aparentemente simples, representa um dos marcos mais importantes do desenvolvimento infantil.

Apontar não serve apenas para indicar um objeto. É uma das primeiras formas de comunicação intencional e demonstra que a criança deseja compartilhar experiências, interesses, descobertas e emoções com outra pessoa.

Quando esse comportamento não aparece na idade esperada, muitos pais não percebem sua importância. No entanto, para os profissionais do desenvolvimento infantil, a ausência do gesto de apontar pode representar um importante sinal de que outras habilidades precisam ser investigadas.

Muito antes da fala, a criança aprende a se comunicar

Existe uma ideia bastante comum de que a comunicação começa quando a criança pronuncia suas primeiras palavras.

Na realidade, a comunicação inicia muito antes disso.

Desde os primeiros meses de vida, o bebê comunica suas necessidades através do olhar, do sorriso, do choro, dos movimentos do corpo, das expressões faciais e dos gestos.

Cada uma dessas formas de interação prepara o cérebro para o desenvolvimento da linguagem.

O gesto de apontar faz parte desse processo e representa um enorme avanço no desenvolvimento social.

O que significa apontar?

Quando uma criança aponta, ela demonstra que compreende que outra pessoa pode compartilhar sua atenção.

Esse comportamento recebe o nome de atenção compartilhada, uma habilidade fundamental para o desenvolvimento da comunicação, da aprendizagem e das relações sociais.

Existem dois tipos principais de apontar.

Apontar para pedir

É quando a criança aponta porque deseja obter algo.

Por exemplo:

  • aponta para um brinquedo que está sobre a mesa;
  • aponta para um copo de água;
  • aponta para um biscoito que deseja comer.

Nesse caso, o objetivo é conseguir aquilo que deseja.

Apontar para compartilhar

Esse é um comportamento ainda mais sofisticado.

A criança aponta apenas para mostrar algo interessante.

Ela aponta para um cachorro na rua.

Para um balão no céu.

Para um caminhão passando.

Depois olha para o adulto como se dissesse:

“Você viu também?”

Esse tipo de comunicação demonstra interesse em compartilhar experiências com outras pessoas e representa um importante indicador do desenvolvimento social.

Quando esse gesto costuma aparecer?

Embora exista variação entre as crianças, espera-se que o gesto de apontar comece a surgir por volta dos 9 aos 12 meses de idade.

Inicialmente, pode ocorrer para pedir objetos.

Com o tempo, torna-se cada vez mais utilizado para compartilhar interesses, fazer perguntas silenciosas e iniciar interações.

Após o primeiro ano de vida, apontar costuma fazer parte da comunicação cotidiana.

Quando a ausência desse comportamento merece atenção?

Alguns sinais merecem ser observados.

A criança:

  • não aponta para pedir objetos;
  • não aponta para mostrar algo interessante;
  • prefere puxar a mão do adulto até o objeto desejado;
  • utiliza o adulto apenas como “ferramenta” para conseguir algo;
  • demonstra pouca iniciativa para compartilhar descobertas;
  • raramente olha para o rosto das pessoas durante as interações.

Quanto mais desses comportamentos estiverem presentes, maior a importância de uma avaliação especializada.

Meu filho pega minha mão. Isso substitui o gesto de apontar?

Muitos pais relatam:

“Ele não aponta, mas pega minha mão e me leva até o que quer.”

Embora isso represente uma forma de comunicação, ela é diferente do gesto de apontar.

Quando a criança utiliza apenas a mão do adulto para alcançar objetos, pode estar demonstrando dificuldades para desenvolver formas mais complexas de comunicação intencional.

Esse comportamento merece ser analisado juntamente com outras habilidades do desenvolvimento.

A ausência do gesto de apontar significa autismo?

Não.

A ausência desse comportamento não confirma nenhum diagnóstico.

Entretanto, sabemos que dificuldades relacionadas à atenção compartilhada estão entre os sinais frequentemente observados em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Além do TEA, outras condições do desenvolvimento também podem influenciar o surgimento desse comportamento.

Por isso, nenhuma conclusão deve ser baseada em apenas um único sinal.

Por que apontar é tão importante?

Quando uma criança aponta, diversas áreas do cérebro trabalham em conjunto.

Ela precisa:

  • perceber algo interessante;
  • compreender que outra pessoa também pode observar aquilo;
  • direcionar sua atenção;
  • coordenar o movimento do braço;
  • olhar para o adulto;
  • compartilhar a experiência.

Essa integração favorece o desenvolvimento de habilidades fundamentais como:

  • linguagem;
  • interação social;
  • aprendizagem;
  • imitação;
  • resolução de problemas;
  • desenvolvimento cognitivo.

Por isso, apontar é considerado um dos principais preditores do desenvolvimento da comunicação.

Como os pais podem estimular essa habilidade?

As melhores oportunidades surgem durante as brincadeiras e nas atividades do cotidiano.

Você pode:

  • apontar para objetos enquanto conversa;
  • mostrar animais durante passeios;
  • ler livros ilustrados apontando figuras;
  • brincar de descobrir objetos na casa;
  • esperar que a criança demonstre interesse antes de entregar um brinquedo;
  • comemorar toda iniciativa espontânea de comunicação.

O objetivo nunca é obrigar a criança a apontar, mas criar situações em que compartilhar experiências seja prazeroso.

Quando procurar ajuda?

É recomendado buscar uma avaliação especializada quando a ausência do gesto de apontar ocorre juntamente com outros sinais, como:

  • atraso na fala;
  • pouca resposta ao nome;
  • dificuldade para manter contato visual;
  • pouco interesse pelas pessoas;
  • brincadeiras repetitivas;
  • dificuldades para imitar gestos;
  • atraso global do desenvolvimento.

Quanto mais cedo essas características forem compreendidas, maiores são as oportunidades de intervenção.

O que a ciência explica?

Nas últimas décadas, pesquisas em neurodesenvolvimento demonstraram que a atenção compartilhada é uma das habilidades mais importantes para o desenvolvimento da linguagem e da comunicação social.

Antes mesmo de aprender a falar, a criança precisa aprender a dividir experiências com outras pessoas.

É justamente essa troca de olhares, gestos, expressões e interesses compartilhados que cria as bases para o desenvolvimento da linguagem oral.

Por isso, os profissionais da infância observam atentamente comportamentos como responder ao nome, olhar para as pessoas, imitar gestos e apontar para compartilhar experiências.

Esses comportamentos não servem para “dar um diagnóstico”, mas ajudam a compreender como o cérebro está organizando as primeiras formas de comunicação.

Mitos e Verdades

“Meu filho fala algumas palavras, então não preciso me preocupar se ele não aponta.”

Mito.

A linguagem envolve muito mais do que produzir palavras. A comunicação por gestos, olhares e atenção compartilhada é igualmente importante.

“Apontar é um comportamento aprendido naturalmente.”

Verdade.

A maioria das crianças desenvolve esse gesto espontaneamente por meio das interações com os adultos e do desejo de compartilhar experiências.

“Toda criança que não aponta tem autismo.”

Mito.

A ausência desse comportamento não confirma nenhum diagnóstico. Ela representa apenas um dos diversos aspectos que precisam ser avaliados por profissionais qualificados.

Como estimular em casa?

  • Brinque de mostrar objetos interessantes.
  • Leia livros ilustrados todos os dias.
  • Faça passeios observando elementos da natureza.
  • Nomeie aquilo para onde você aponta.
  • Espere a iniciativa da criança antes de oferecer ajuda.
  • Valorize toda tentativa de comunicação, mesmo que ainda não seja verbal.

Quando procurar ajuda imediatamente?

Procure uma avaliação especializada se seu filho:

  • não aponta após o primeiro ano de vida;
  • não utiliza gestos para se comunicar;
  • não responde ao nome;
  • demonstra pouco interesse pelas pessoas;
  • apresenta atraso na fala;
  • perdeu habilidades que já havia desenvolvido.

A avaliação precoce permite compreender as necessidades da criança e construir estratégias individualizadas para favorecer seu desenvolvimento.

Como acontece a avaliação na TEAprimorando?

Na TEAprimorando, avaliamos muito mais do que um comportamento isolado.

Observamos como a criança brinca, aprende, interage, se comunica, participa das atividades do cotidiano e utiliza diferentes formas de comunicação verbal e não verbal.

Nosso objetivo é compreender seu perfil de desenvolvimento de maneira ampla, identificando potencialidades, necessidades e oportunidades de intervenção baseadas nas melhores evidências científicas.

Conclusão

Apontar é muito mais do que estender um dedo em direção a um objeto.

É uma das primeiras demonstrações de que a criança deseja compartilhar o mundo com outra pessoa.

Quando esse comportamento não aparece na idade esperada, vale a pena buscar orientação especializada.

Na TEAprimorando, acreditamos que compreender os primeiros sinais do desenvolvimento permite construir intervenções mais precoces, mais individualizadas e mais eficazes.

Porque toda grande conversa começa muito antes da primeira palavra.

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